Ao redor do mundo existem diversas culturas, e a música é uma parte essencial de cada uma delas. Em algum momento da sua vida você já escutou alguma música que misteriosamente lhe fez lembrar de algum país, região ou alguma época específica? Neste post iremos lhe apresentar o misterioso mundo dos modos gregos e sua capacidade de mexer com nossos sentidos.

Introdução

No artigo de hoje iremos tratar sobre um assunto que costuma causar dor de cabeça para os músicos em geral: os modos gregos. A princípio pode parecer um bicho de sete cabeças, mas ao terminar de ler este post você verá que é algo muito mais simples do que aparenta. Veja abaixo os tópicos que finalmente irão lhe desvendar o mistério dos modos gregos:

  • O que são Modos Gregos?
  • Como surgiram os Modos Gregos?
  • Os Modos Gregos e suas aplicações
  • Modal vs Tonal

O que são Modos Gregos?

De uma maneira direta, os modos gregos nada mais são do que escalas que se originam dentro de uma outra escala, ou seja, a partir de inversões de escala. Utilizaremos como exemplo a escala maior de Dó, também chamada de escala natural (pois não há nenhum acidente musical nas notas que a compõe): Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si, Dó.

Ao analisarmos esta escala em tons (T) e semitons (ST), obteremos a seguinte estrutura:

Modos Gregos: Tons e semitons da escala maior (Tônica: Dó)

Mas qual a relação de uma escala maior com os modos gregos? Acontece que é justamente de uma escala maior que os modos gregos irão se originar: ao reorganizar a ordem das notas que compõem a escala maior partindo de cada uma das sete notas (transformando-as em tônica) iremos alterar a relação de tons e semitons entre elas, gerando sete novas escalas.

Veja no exemplo a seguir as escalas originadas ao transformar as notas da escala natural em tônica:



Tônica:
Dó.

Modos Gregos: Tons e semitons da escala maior (Tônica: Dó)



Tônica:
Ré.



Tônica:
Mi.



Tônica:
Fá.



Tônica:
Sol.



Tônica:
Lá.



Tônica:
Si.

Observação: todas as escalas originadas possuem sete notas, sendo a oitava nota a repetição da tônica.

 

Como surgiram os Modos Gregos?

A origem da nomenclatura “modos gregos” é um pouco confusa e controversa. Como o próprio nome sugere, tais escalas originaram-se de diferentes povos da Grécia Antiga, sendo o nome de cada modo atribuído a sua região de origem (Jônio, Dórico, Frígio, etc.). Porém, estas escalas não eram as mesmas que utilizamos atualmente. Então, como chegamos aos modos gregos modernos?

Daremos um salto temporal até a Idade Média, época na qual o ensino e prática formais da música eram estritos à Igreja Católica, onde o Papa Gregoriano estruturou escalas distintas com base no modo Jônio, que como veremos mais à frente, sua estrutura é exatamente a mesma de uma escala maior. Tais escalas ficaram conhecidas como Modos Gregorianos, ou Eclesiásticos,  hoje em dia popularmente conhecidos como Modos Gregos.

 

Os Modos Gregos e suas aplicações

Vimos anteriormente que cada escala dos modos gregos recebe um nome de acordo com sua região de origem, e que cada um dos modos possui uma estrutura única de tons e semitons entre as notas que formam as escalas. Tal estrutura única irá originar novos intervalos entre as notas, criando sonoridades e características únicas a cada modo.

A seguir vamos analisar cada modo dentro da escala de Dó maior, suas notas características, avoid notes (notas evitadas) e os shapes (desenhos) ao longo do braço da guitarra e também do violão:

Jônio

O modo Jônio é o primeiro dos modos,  na qual sua estrutura de tons e semitons forma os seguintes intervalos:

Como podemos observar, o modo Jônio nada mais é do que a própria escala de Dó maior. Sua principal característica dá-se por ser uma escala maior com intervalo de 4ª justa. Apesar de originalmente ser um modo, foi esta escala que serviu de base no surgimento da música tonal.

Por ser um modo maior, sua sonoridade tende a ser mais alegre, sendo muito utilizado em músicas infantis, jingles, baladas, etc.

Avoid note: 4ª Justa (Fá).

Observação: as avoid notes, ou notas a serem evitadas são notas localizadas meio tom acima das notas que compõem a tétrade (tônica, terça, quinta e sétima) de determinado modo.


Dórico

O modo Dórico surge quando transformamos a segunda nota de uma escala maior em tônica, originando a seguinte estrutura:

Sua nota característica é a sexta maior, sendo o único modo menor a possuir tal intervalo, dando origem a uma sonoridade única, livre de tensões, muito distinta dos outros modos menores.

É muito presente na música renascentista, na nordestina , e até mesmo no rock, blues e no jazz.

Avoid note: não possui nenhuma nota a ser evitada.


Frígio

O modo Frígio é a escala originada a partir da terça de uma escala maior, cuja estrutura é a seguinte:

É um modo menor, sua nota característica é a segunda menor, gerando uma sonoridade tensa, misteriosa.

É muito utilizado no flamenco e frequentemente associado à regiões das arábias.

Avoid note: 2ª menor (Fá), 6ª menor (Dó).


Lídio

O modo Lídio é a escala gerada a partir da quarta de uma escala maior, tendo a seguinte estrutura:

É um modo maior cujo intervalo característico é a quarta aumentada, o que irá definir sua sonoridade espacial, fantasiosa e épica, sendo muito utilizado em trilhas sonoras e no rock.

Avoid note: não possui.


Mixolídio

O modo Mixolídio surge ao transformarmos a quinta em tônica, obtendo a seguinte estrutura:

Tem como nota característica a sétima menor, gerando tensão em sua sonoridade. É muito utilizado na música nordestina, no blues, no rock e também no jazz.

Avoid note: 4ªjusta (Dó).


Eólio

O modo Eólio surge a partir da sexta nota da escala maior e sua estrutura é a seguinte:

Assim como o modo Jônio possui a mesma estrutura de uma escala  maior, a estrutura do modo Eólio é exatamente a mesma da escala menor natural, também servindo como base no surgimento da música tonal.

Por ser uma escala menor, sua sonoridade é mais melancólica, sombria, porém menos tensa do que o modo Frígio. Sua nota característica é a sexta menor. É muito presente em músicas do período da Renascença e em estilos derivados do heavy metal.

Avoid note: 6ª menor (Fá).


Lócrio

O último modo gerado a partir da escala de Dó maior é o Lócrio, e segue a seguinte estrutura:

Suas notas características são a 2ª menor e a 5ª diminuta, o que a torna a única escala diminuta entre os sete modos gregos, possuindo uma sonoridade ainda mais tensa que o modo Frígio. Pode ser encontrado em trechos de obras eruditas e principalmente em riffs de heavy metal.

Avoid note: 2ª menor e 6ª menor.

 

Observação: é importante ressaltar que utilizamos a escala maior de Dó/escala natural apenas para exemplificar a formação das escalas que formam os modos gregos; todavia, o mesmo procedimento pode ser feito com qualquer outra escala maior, sempre respeitando a estrutura intervalar de cada modo.

 

Diferenças entre harmonia modal e harmonia tonal

Para finalizar este post, vamos esclarecer uma das maiores dúvidas em relação aos modos gregos: quando a música é modal e quando a música é tonal?

Conforme vimos nos tópicos anteriores, os modos gregos são escalas que se originam a partir de uma determinada escala maior, e consequentemente seus shapes são exatamente os mesmos desta escala. Então como saber se estamos tocando apenas desenhos da escala maior ou os modos gregos?

A resposta está na harmonia da música, ou seja, na sequência de acordes que a compõem, seja ao longo da música inteira ou apenas em trechos determinados.

Harmonia Tonal

A harmonia tonal caracteriza-se por suas cadências: sequências de acordes que nos conduzem através da alternância entre movimentos de tensão e relaxamento, sempre em direção à tônica.

Harmonia Modal

Já a harmonia modal foca apenas em enfatizar as características sonoras de cada modo, não havendo tais conduções entre acordes tensos e acordes de repouso.

Colocando em prática:

Se tocarmos o shape 2, partindo da nota Ré, sobre a sequência de acordes C, F, G, irá soar como a escala de Dó maior ou como Ré Dórico?
Resposta: irá soar como a escala de Dó maior, pois apesar de estarmos tocando o shape a partir da nota Ré, a harmonia C, F, G caracteriza uma cadência típica da harmonia tonal.

Mas e se tocarmos o mesmo shape 2 sobre a sequência Dm, G? Soará como a escala de Dó maior ou como Ré Dórico?
Resposta: irá soar como Ré Dórico, pois a sequência de acordes Dm, G enfatiza as notas características do modo Dórico, sendo classificada como harmonia modal.

 

Modos Gregos desmistificados

Agora que chegamos ao fim do nosso post sobre o vasto universo dos modos gregos, aprendemos sobre sua origem secular, também vimos como montar a estrutura  de cada um dos sete modos gregos, e por último mas não menos importante, entendemos seus mistérios acerca de suas sonoridades características causadas pelos intervalos únicos de cada um dos modos, sendo capazes de nos remeter a determinadas sensações, lembranças, regiões e povos ao redor do mundo.

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